Na suinocultura, as primeiras 24 horas de vida do leitão são as mais críticas de todo o ciclo produtivo.
Nesse período, o animal enfrenta simultaneamente a adaptação à temperatura ambiente, o início da competição pelo colostro com os irmãos de leitegada, a exposição aos primeiros agentes infecciosos do ambiente e uma série de procedimentos de manejo que, quando realizados corretamente, definem a saúde e o desempenho do leitão nas semanas seguintes.
A mortalidade pré-desmame é um dos indicadores mais sensíveis da eficiência de uma granja suinícola. Grande parte das perdas ocorre justamente nas primeiras 72 horas de vida — e a maioria delas pode ser reduzida significativamente com manejo adequado logo após o parto.
👉 Em outras palavras: o que é feito nas primeiras 24 horas do leitão impacta diretamente a taxa de mortalidade, o peso ao desmame e o desempenho do animal nas fases seguintes.
No criativo de hoje, organizamos os seis procedimentos essenciais do manejo de leitões nas primeiras 24 horas: identificação, cura do umbigo, pesagem, aplicação de ferro, corte de cauda e desgaste dos dentes.
🐷 1 — Identificação Colocação de brincos para controle e rastreabilidade
A identificação do leitão logo após o nascimento é o primeiro passo para um sistema de produção organizado e rastreável. Em granjas comerciais tecnificadas, o brinco é o método mais utilizado — permite vincular o animal à sua mãe, ao lote de nascimento e ao histórico sanitário e produtivo desde o primeiro dia de vida.
Além do controle interno da granja, a rastreabilidade é uma exigência crescente do mercado — especialmente para granjas integradas a agroindústrias e para aquelas que abastecem mercados mais exigentes, como o de exportação.
O que fazer nessa etapa:
- identificar o leitão com brinco logo após os procedimentos iniciais de pós-parto
- registrar o número do animal vinculado à porca e à data de nascimento
- manter controle individual dos leitões com baixo peso ao nascimento para manejo diferenciado
👉 Um sistema de identificação bem conduzido desde o nascimento facilita todas as decisões de manejo ao longo do ciclo produtivo — da maternidade ao abate.
🐷 2 — Cura do Umbigo Limpeza do cordão umbilical para prevenção de infecções
O cordão umbilical é a principal porta de entrada para infecções bacterianas nas primeiras horas de vida do leitão. A onfalite — infecção do umbigo — pode evoluir rapidamente para septicemia neonatal, com alto risco de morte nas primeiras semanas de vida.
A Embrapa Suínos e Aves recomenda a cura do umbigo com solução iodada a 10% logo após o nascimento, como medida padrão de biosseguridade na maternidade. O procedimento é simples, rápido e de baixo custo — mas tem impacto direto na mortalidade neonatal da leitegada.
O que fazer nessa etapa:
- aplicar solução iodada a 10% no coto umbilical logo após o nascimento
- garantir que o cordão seja mergulhado completamente na solução, não apenas pincelado
- observar o umbigo nas primeiras 48 horas para identificar sinais de inflamação ou secreção
👉 A cura do umbigo é um dos procedimentos de menor custo e maior impacto na saúde neonatal do leitão. Negligenciá-la é abrir espaço para perdas evitáveis.
🐷 3 — Pesagem Pesar ao nascer para garantir que estão dentro da faixa de peso adequada
O peso ao nascimento é um dos indicadores mais importantes para a avaliação da viabilidade do leitão e para a tomada de decisão sobre o manejo inicial da leitegada. Leitões com peso adequado ao nascimento têm maior reserva de glicogênio hepático, maior resistência ao frio e maior capacidade de competir pelo colostro.
A Embrapa Suínos e Aves indica que leitões com peso abaixo de 900g ao nascimento têm probabilidade de morte pré-desmame significativamente maior do que aqueles com peso acima de 1,3 kg. O peso médio esperado ao nascimento em linhagens comerciais modernas é de 1,2 a 1,5 kg.
O que fazer nessa etapa:
- pesar todos os leitões logo após o nascimento e o manejo inicial
- identificar os leitões de baixo peso para manejo diferenciado — apoio à mamada, transferência de leitegada ou uso de porca ama
- registrar o peso médio da leitegada como indicador de desempenho reprodutivo da porca
👉 A pesagem ao nascimento é uma ferramenta de gestão — não apenas uma medição. É ela que permite ao produtor agir preventivamente antes que a mortalidade aconteça.
🐷 4 — Aplicação de Ferro Injeção de ferro para prevenção de anemia ferropriva
O leitão nasce com reservas de ferro extremamente limitadas — entre 40 e 50 mg — e tem uma demanda metabólica crescente que pode chegar a 7 mg de ferro por dia durante a fase de aleitamento. O leite da porca, por sua vez, fornece apenas 1 a 2 mg de ferro por dia — muito abaixo da necessidade do animal.
O resultado dessa deficiência, quando não corrigida, é a anemia ferropriva: redução da hemoglobina, queda no ganho de peso, letargia, maior suscetibilidade a doenças respiratórias e entéricas e, nos casos mais graves, morte.
A aplicação de ferro dextrano por via intramuscular nas primeiras 24 a 72 horas de vida é prática padrão e obrigatória em suinocultura tecnificada, validada pela Embrapa Suínos e Aves e amplamente adotada em granjas comerciais de todo o Brasil.
O que fazer nessa etapa:
- aplicar ferro dextrano por via intramuscular na face interna da coxa ou no pescoço
- dose padrão: 200 mg de ferro por leitão, conforme indicação do produto e orientação veterinária
- realizar a aplicação preferencialmente entre 24 e 48 horas após o nascimento
- em alguns sistemas, uma segunda dose é realizada ao redor dos 21 dias
👉 A aplicação de ferro é um dos procedimentos de maior impacto no desempenho da leitegada. Leitões sem ferro desenvolvem anemia que compromete o crescimento e aumenta a mortalidade pré e pós-desmame.
🐷 5 — Corte de Cauda Realizado 24 horas após o nascimento com alicate cauterizador
O corte de cauda é realizado na suinocultura intensiva como medida preventiva contra a caudofagia — comportamento em que leitões mordem a cauda uns dos outros, especialmente em sistemas de alta densidade. Uma lesão de cauda pode evoluir para infecção sistêmica grave e morte, além de gerar condenações no abate.
O procedimento é realizado com alicate desinfetado, sendo o modelo com cauterizador o mais recomendado tecnicamente — o calor promove a cauterização imediata do tecido, reduzindo o risco de sangramento e infecção no local do corte.
⚠️ Ressalva técnica importante: o corte de cauda rotineiro é um tema em debate crescente no setor suinícola mundial. A União Europeia já proíbe a prática como rotina, exigindo que seja adotada apenas quando comprovada a necessidade após o esgotamento de medidas preventivas de bem-estar animal — como redução de densidade, enriquecimento ambiental e manejo de estresse. No Brasil, a prática ainda é amplamente utilizada, mas granjas que buscam certificações de bem-estar animal ou acesso a mercados internacionais mais exigentes devem estar atentas a essa tendência.
O que fazer nessa etapa:
- realizar o corte com alicate cauterizador desinfetado
- cortar entre um terço e metade da cauda — não remover completamente
- monitorar o local do corte nas primeiras 48 horas para sinais de infecção
👉 O corte de cauda resolve um sintoma — a caudofagia — mas não a causa, que está no estresse e na densidade. O manejo ambiental adequado é sempre o primeiro passo.
🐷 6 — Desgaste dos Dentes Realizado 24 horas após o nascimento com desbastador
O leitão nasce com oito dentes caninos decíduos — popularmente chamados de “dentes de leite” ou “dentes agulha” — que são afiados o suficiente para causar lesões nas tetas da porca e no focinho dos irmãos de leitegada durante a disputa pelo colostro e pelo leite.
Essas lesões têm duas consequências práticas: dor na porca, que pode levar à recusa em amamentar, e feridas no focinho dos leitões, que servem como porta de entrada para infecções. O desgaste dos dentes reduz o risco de ambas as situações.
O desbastador — instrumento que desgasta a ponta do dente sem cortá-lo completamente — é tecnicamente preferível ao alicate de corte porque reduz o risco de fratura do dente e da subsequente exposição da polpa dentária, que pode evoluir para abscesso e infecção.
O que fazer nessa etapa:
- realizar o desgaste com desbastador elétrico ou manual nas primeiras 24 horas
- desgastar apenas a ponta do dente — não remover o dente completamente
- verificar todos os oito caninos decíduos em cada leitão
- desinfetar o equipamento entre leitões para evitar transmissão de patógenos
👉 O desgaste correto dos dentes protege a porca e os leitões — e contribui para uma leitegada mais uniforme e com menor mortalidade por lesões e infecções.
📊 Por que o manejo nas primeiras 24 horas define o resultado da leitegada?
Na suinocultura tecnificada, a mortalidade pré-desmame é um dos indicadores mais monitorados pelos gestores de granjas. Em sistemas bem manejados, essa taxa fica abaixo de 8 a 10%. Em granjas com manejo inadequado nas primeiras horas, pode ultrapassar 20%.
Quando o produtor realiza os seis procedimentos de forma correta e no tempo certo, ele consegue:
✔ reduzir a mortalidade neonatal por infecções e anemia ✔ identificar leitões de risco para manejo diferenciado ✔ garantir melhor uniformidade da leitegada ao desmame ✔ proteger a saúde e o conforto da porca na maternidade ✔ aumentar o peso médio ao desmame — principal indicador de eficiência da fase
👉 Cada leitão salvo nas primeiras 24 horas é um animal que chega ao abate — e representa retorno direto sobre o investimento da granja.
⚠️ O erro mais comum no manejo neonatal
O erro mais frequente é tratar os procedimentos das primeiras 24 horas como opcionais ou postergáveis — aplicando apenas alguns deles, fora do tempo ideal ou sem a técnica correta.
As consequências práticas são:
- aumento da mortalidade neonatal por onfalite e septicemia
- anemia ferropriva que compromete o ganho de peso nas semanas seguintes
- lesões na porca que reduzem a disposição para amamentar
- leitões de baixo peso que passam despercebidos e morrem sem intervenção
- rastreabilidade comprometida pela falta de identificação precoce
Ou seja: cada procedimento omitido ou mal executado nas primeiras 24 horas tem um custo — que aparece nas semanas seguintes em forma de mortalidade, baixo desempenho e perda produtiva.
🌱 Manejo neonatal eficiente é protocolo, não improviso
A suinocultura moderna exige que o manejo de leitões nas primeiras horas de vida seja padronizado, executado por equipe treinada e registrado sistematicamente.
É preciso garantir:
- protocolo claro para cada procedimento
- equipe treinada para execução correta e no tempo adequado
- materiais e equipamentos disponíveis e higienizados antes do parto
- registro individual dos procedimentos realizados em cada leitão
👉 Quanto mais padronizado for o manejo neonatal, menor a mortalidade e maior a uniformidade da leitegada ao desmame.
🎓 Conhecimento técnico transforma o resultado da maternidade
Entender os procedimentos do manejo neonatal em suínos — e a razão técnica por trás de cada um — é o que diferencia um suinocultor que reage aos problemas de um suinocultor que os previne.
No Curso Profissional de Criação & Saúde Animal da Educa Agro EAD, o manejo neonatal em suínos integra a formação porque as decisões tomadas nas primeiras horas de vida do leitão têm impacto direto na eficiência produtiva de toda a fase de maternidade.
✅ Conclusão
Identificação, cura do umbigo, pesagem, aplicação de ferro, corte de cauda e desgaste dos dentes — seis procedimentos, uma janela de 24 horas, impacto que dura todo o ciclo produtivo.
Na suinocultura, não existe fase mais sensível nem mais decisiva do que as primeiras horas de vida do leitão. E o produtor que entende isso age com protocolo, com técnica e com atenção — porque sabe que é aqui que o resultado da leitegada começa a ser construído.
👉 Na suinocultura, quem cuida bem nas primeiras 24 horas colhe resultado em todo o ciclo.
No manejo neonatal, cada hora importa. E cada procedimento tem seu papel.
