Na pecuĆ”ria de corte, alimentar o gado nĆ£o Ć© simplesmente oferecer comida — Ć© formular a dieta certa para cada fase do animal.

Um dos erros mais comuns e mais caros na pecuĆ”ria Ć© tratar a alimentação do rebanho de forma uniforme, oferecendo o mesmo tipo de dieta para animais em fases completamente diferentes. Um bezerro em crescimento tem necessidades nutricionais distintas de um boi em terminação — e ignorar essa diferenƧa significa desperdiƧar alimento, dinheiro e potencial produtivo.

šŸ‘‰ Em outras palavras: cada fase do animal exige uma formulação especĆ­fica, com proporƧƵes diferentes de volumoso e concentrado, e com foco nutricional adequado ao objetivo daquela etapa.

No conteĆŗdo de hoje, apresentamos exemplos de formulação de dieta para as trĆŖs principais fases da criação bovina — cria, recria e engorda — com duas opƧƵes para cada fase e o foco nutricional de cada uma.

āš ļø Importante: as formulaƧƵes apresentadas sĆ£o exemplos de referĆŖncia tĆ©cnica. A dieta deve sempre ser balanceada por um zootecnista ou veterinĆ”rio, conforme o peso, a categoria e os ingredientes disponĆ­veis na propriedade.


🌱 Como funciona a formulação de uma dieta bovina?

Antes de entrar nas fases, Ʃ importante entender a estrutura bƔsica de qualquer dieta para bovinos. Ela Ʃ composta por dois grandes grupos de alimentos:

Volumoso — Ć© a base da dieta e fornece a fibra essencial para o funcionamento do rĆŗmen. Inclui pasto, silagem, feno e cana. Tem menor concentração de energia, mas Ć© indispensĆ”vel para a saĆŗde digestiva do animal.

Concentrado — Ć© a parte que concentra energia e proteĆ­na. Os principais sĆ£o o milho (fonte de energia) e o farelo de soja (fonte de proteĆ­na), alĆ©m de sal mineral, ureia e outros ingredientes.

A proporção entre volumoso e concentrado muda conforme a fase e o objetivo. Em confinamento de engorda, por exemplo, a relação pode chegar a 20% de volumoso para 80% de concentrado. Em recria a pasto, o volumoso domina e o concentrado é suplementar.


🐮 Fase de Cria — alimentação do bezerro

A fase de cria Ć© o inĆ­cio da vida produtiva do animal, e o foco nutricional aqui Ć© claro: proteĆ­na para crescimento e formação de estrutura corporal. O bezerro estĆ” construindo mĆŗsculo e esqueleto — e isso exige aporte proteico adequado.

Nessa fase, a suplementação do bezerro ainda durante o aleitamento, com acesso a um concentrado de qualidade, acelera o desenvolvimento e prepara o animal para as fases seguintes.

Dieta 1:

  • Pasto (volumoso base): Ć  vontade
  • Milho moĆ­do: 65%
  • Farelo de soja: 30%
  • Sal mineral: 5%
  • šŸŽÆ Foco: PROTEƍNA para crescimento e estrutura

Dieta 2:

  • Pasto: Ć  vontade
  • Milho moĆ­do: 60%
  • Farelo de algodĆ£o: 35%
  • NĆŗcleo mineral: 5%
  • šŸŽÆ Foco: PROTEƍNA para desenvolvimento inicial

šŸ‘‰ O bezerro bem alimentado na fase de cria expressa melhor o potencial genĆ©tico nas fases seguintes. A proteĆ­na nessa etapa constrói a base estrutural do futuro animal de abate.


šŸ‚ Fase de Recria — desenvolvimento do garrote

Na recria, o animal jĆ” foi desmamado e estĆ” em fase de crescimento e formação de estrutura. O foco continua sendo proteĆ­na, mas a estratĆ©gia muda conforme o sistema adotado — pode ser suplementação a pasto ou semiconfinamento.

Essa é uma fase crítica porque coincide frequentemente com o período seco, quando a pastagem perde qualidade. A suplementação correta nesse momento evita a perda de peso e mantém o animal em crescimento contínuo.

Dieta 1 (proteinado):

  • Pasto marandu (volumoso base): Ć  vontade
  • Farelo de soja: 45%
  • Milho moĆ­do: 30%
  • Sal mineral + ureia: 25%
  • šŸŽÆ Foco: PROTEƍNA para ganho a pasto na seca

Dieta 2 (semiconfinamento):

  • Silagem de milho: 50%
  • Milho moĆ­do: 35%
  • Farelo de soja: 12%
  • Mineral: 3%
  • šŸŽÆ Foco: EQUILƍBRIO entre energia e proteĆ­na

šŸ‘‰ A recria bem conduzida prepara o animal para entrar na engorda com a estrutura corporal adequada — o que reduz o tempo de terminação e melhora a eficiĆŖncia do confinamento.


šŸ„ Fase de Engorda — terminação para o abate

Na engorda, o objetivo muda completamente: agora o foco Ć© energia para ganho rĆ”pido de peso e acabamento de carcaƧa. O animal jĆ” tem a estrutura formada — o que se busca Ć© deposição de mĆŗsculo e gordura para atingir o ponto comercial de abate.

Por isso, nessa fase o concentrado domina a dieta — especialmente o milho, principal fonte de energia. Ɖ a fase de maior consumo de ração e maior custo, mas tambĆ©m a de maior velocidade de ganho.

Dieta 1 (clƔssica):

  • Milho moĆ­do: 80%
  • Farelo de soja: 15%
  • Sal mineral com aditivos: 5%
  • šŸŽÆ Foco: ENERGIA para ganho rĆ”pido de peso

Dieta 2 (com volumoso):

  • Silagem de milho: 35%
  • Milho moĆ­do: 45%
  • Farelo de soja: 12%
  • CaroƧo de algodĆ£o: 5%
  • Mineral: 3%
  • šŸŽÆ Foco: ENERGIA para acabamento de carcaƧa

šŸ‘‰ A dieta de engorda transforma o investimento das fases anteriores em peso e acabamento. Quanto melhor a recria, mais eficiente Ć© a resposta do animal Ć  dieta de terminação.


šŸ’” A lógica por trĆ”s da formulação

Entendendo a função de cada componente, fica simples compreender por que as dietas mudam ao longo das fases:

šŸ”¹ Volumoso (pasto, silagem) → fibra e base da dieta — saĆŗde do rĆŗmen šŸ”¹ Milho → energia — combustĆ­vel para ganho de peso šŸ”¹ Farelo de soja → proteĆ­na — construção de mĆŗsculo e estrutura šŸ”¹ Animal jovem → mais proteĆ­na — estĆ” construindo o corpo šŸ”¹ Animal em terminação → mais energia — estĆ” depositando gordura e acabamento

Essa lógica explica a transição: quanto mais jovem o animal, maior a necessidade de proteína. Quanto mais próximo do abate, maior a necessidade de energia.


šŸ“Š Por que formular a dieta por fase muda o resultado?

Na prÔtica, formular a dieta corretamente por fase tem impacto direto em três pontos críticos da pecuÔria:

āœ” Custo — nĆ£o desperdiƧa proteĆ­na cara em animal de terminação, nem energia em excesso em animal jovem āœ” Desempenho — cada fase recebe o nutriente que mais precisa, maximizando o ganho āœ” EficiĆŖncia — a conversĆ£o alimentar melhora quando a dieta estĆ” alinhada ao objetivo da fase

Um erro comum Ć© dar dieta de engorda — rica em energia — para animal ainda em recria, que precisa de proteĆ­na para crescer. O resultado Ć© um animal que engorda cedo demais, deposita gordura antes da hora e nĆ£o desenvolve a estrutura adequada.

šŸ‘‰ A dieta certa, na fase certa, Ć© o que separa a pecuĆ”ria eficiente da pecuĆ”ria que gasta muito e ganha pouco.


āš ļø O erro mais comum na alimentação do rebanho

O erro mais frequente Ć© usar uma Ćŗnica dieta para todo o rebanho, independente da fase dos animais.

As consequências prÔticas são:

  • desperdĆ­cio de proteĆ­na cara em animais que precisam de energia
  • ganho de peso abaixo do potencial em cada fase
  • conversĆ£o alimentar ineficiente e custo elevado por arroba
  • animais que nĆ£o atingem o peso de abate no prazo planejado

Ou seja: alimentar todos os animais igual Ć© simples — mas Ć© caro e ineficiente. A formulação por fase exige mais planejamento, mas entrega muito mais resultado.


šŸŽ“ Conhecimento tĆ©cnico transforma a dieta em resultado

Entender como formular a dieta de cada fase — quais ingredientes usar, em que proporção e com qual foco nutricional — Ć© parte da formação de quem trabalha com pecuĆ”ria de forma profissional.

No Curso Profissional de Criação & Saúde Animal da Educa Agro EAD, nutrição animal e formulação de dietas integram a formação porque alimentar o rebanho com técnica é o que define o custo de produção e a rentabilidade da pecuÔria.


āœ… ConclusĆ£o

Cria, recria e engorda — trĆŖs fases, trĆŖs focos nutricionais, formulaƧƵes especĆ­ficas para cada objetivo.

Na cria e na recria, o foco é proteína para construir o animal. Na engorda, o foco é energia para terminar o animal. Entender essa lógica e formular a dieta certa para cada fase é o que transforma a alimentação do rebanho de custo em investimento.

šŸ‘‰ Na pecuĆ”ria, nĆ£o existe dieta Ćŗnica. Existe a dieta certa para cada fase do animal.