Quando se fala em peixe no prato do brasileiro, a imagem que vem à cabeça costuma ser a de um peixe de rio, pescado em alguma bacia do país. No entanto, a realidade da produção é outra.
Em 2025, o Brasil cultivou 1.011.540 toneladas de peixes — a primeira vez na história que o país passou da marca de 1 milhão de toneladas. E quase 70% desse volume veio de uma única espécie, que nem é brasileira.
Entender quais peixes o país mais cria, de onde eles vêm e para onde o mercado está indo é o primeiro passo para quem pensa em entrar na piscicultura ou profissionalizar os tanques que já tem.
👉 Em outras palavras: o peixe mais produzido do Brasil é africano — e os nativos estão perdendo espaço.
No conteúdo de hoje, mostramos os números de 2025, o ranking das espécies e o que esses dados significam na prática para o produtor.
📊 O retrato da piscicultura em 2025
Segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura Peixe BR 2026, a produção de 2025 cresceu 4,4% sobre o ano anterior e se dividiu assim:
- Tilápia: 707.495 toneladas — 70% do total
- Peixes nativos: 257.070 toneladas — 25%
- Outras espécies: 46.975 toneladas — 5%
Em dez anos, o setor cresceu 58,6%: saiu de 638 mil toneladas em 2015 para mais de 1 milhão em 2025.
Estados que mais produziram:
- Paraná — 273,1 mil t (27% do país)
- São Paulo — 93,7 mil t
- Minas Gerais — 77,5 mil t
- Santa Catarina — 63,4 mil t
- Maranhão — 59,6 mil t
👉 Só o Paraná produz mais peixe cultivado do que os quatro estados seguintes somados.
🐟 Tilápia: a líder absoluta
📊 707.495 toneladas em 2025 · 70% da produção · origem: África
A tilápia-do-Nilo não é nativa do Brasil, mas se adaptou tão bem que virou a base da piscicultura nacional. Em dez anos, sua produção saltou de 285 mil para 707 mil toneladas — um crescimento de 148%.
Pontos de destaque:
- Crescimento rápido e boa conversão alimentar
- Carne branca, de sabor suave, com alta aceitação no mercado
- Filé padronizado, ideal para a indústria e para exportação
- Responde por 94% de todo o peixe cultivado que o Brasil exporta
Em 2025, porém, a tilápia também entrou na lista de espécies exóticas invasoras do Ministério do Meio Ambiente — um sinal de atenção para o manejo e para a contenção dos peixes nos tanques.
👉 A tilápia não domina por acaso: ela domina porque a indústria foi construída em torno dela.
🏆 Quem vem depois da tilápia
O levantamento por espécie mais recente é o do IBGE, referente a 2024. Ele mostra quem ocupa o restante do ranking:
1️⃣ Tambaqui — 120,8 mil toneladas
🇧🇷 Nativo da Amazônia
É o maior peixe nativo da piscicultura brasileira e o segundo mais criado do país. É cultivado em todos os estados, mas tem sua força no Norte — Rondônia é líder nacional. Peixe de corpo arredondado, com carne muito apreciada, sobretudo a costela.
2️⃣ Tambacu e tambatinga — 47,6 mil toneladas
🧬 Híbridos criados pelo homem
São peixes que não existem na natureza. O tambacu é o cruzamento do tambaqui com o pacu; a tambatinga, do tambaqui com a pirapitinga. Os híbridos unem características dos pais, como crescimento rápido e maior resistência ao frio do que o tambaqui puro.
3️⃣ Carpa — 14,4 mil toneladas
🌍 Exótica, de origem asiática
Criada há séculos na Ásia, a carpa é comum em policultivo, dividindo o tanque com outras espécies. Em 2024, teve queda de 4,4% na produção.
4️⃣ Pintado, cachara e surubim — 13,0 mil toneladas
🇧🇷 Nativos
São os peixes de couro mais produzidos do país, reconhecidos pelas pintas e pelos barbilhões longos. Carne firme, sem espinhas intramusculares e de alto valor comercial.
5️⃣ Pacu e patinga — 7,0 mil toneladas
🇧🇷 Nativo / 🧬 Híbrido
O pacu é nativo; a patinga é o híbrido do pacu com a pirapitinga. Ambos fazem parte do grupo dos chamados “peixes redondos”, junto com o tambaqui.
👉 Dos cinco peixes que vêm depois da tilápia, três são nativos, um é exótico e um é um híbrido que a natureza nunca produziu.
📉 O recuo dos peixes nativos
Enquanto a tilápia cresce ano após ano, os nativos caíram pelo terceiro ano consecutivo — recuo de 0,63% em 2025.
Por que isso acontece:
- O consumo de nativos se concentra nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste
- A cadeia ainda carece da industrialização que a tilápia já tem
- A região Norte foi a única a recuar em 2025, com queda de 1,41%
Rondônia (55,2 mil t), Maranhão (42,7 mil t) e Mato Grosso (40 mil t) lideram a produção de nativos.
💡 Por que isso muda o resultado
Os números mostram que volume não é garantia de preço. Em 2025, justamente com a tilápia batendo recorde, o preço médio pago ao produtor caiu 20,6% no primeiro semestre, chegando a R$ 7,92 por quilo, pressionado pelo excesso de oferta.
E, pela primeira vez, o Brasil passou a importar tilápia — do Vietnã — o que aumenta ainda mais a concorrência no mercado interno.
👉 Na piscicultura, quem ganha não é quem produz mais, e sim quem produz com custo baixo e sabe para quem vai vender.
⚠️ O erro mais comum
- Escolher a espécie pelo que se come em casa, e não pelo mercado da região
- Começar a criar sem saber quem vai comprar o peixe na despesca
- Ignorar o clima: espécies nativas da Amazônia sofrem em regiões frias
- Comprar alevinos sem procedência, sem saber a genética e a sanidade do lote
👉 O peixe certo é o que se adapta ao clima e tem comprador perto da sua propriedade.
🎓 Da informação à criação
Saber qual espécie o mercado absorve é só o começo. No Curso Profissional de Criação & Saúde Animal, a piscicultura é tratada junto das principais criações do agro, com foco no que de fato define o resultado: manejo correto, sanidade, alimentação e organização da produção — do alevino à despesca.
✅ Conclusão
A piscicultura brasileira atingiu em 2025 um marco histórico, mas continua muito concentrada: 7 em cada 10 peixes cultivados são tilápia, enquanto os nativos, como o tambaqui e o pintado, recuam pelo terceiro ano seguido. Para o produtor, os dados deixam uma lição clara — antes de escolher o peixe, é preciso escolher o mercado.
👉 Criar peixe é fácil. Criar peixe com lucro exige planejamento.
Referências
- Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) — Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026
- IBGE — Pesquisa da Pecuária Municipal 2024, Tabela 3940 (Produção da aquicultura por tipo de produto)
- Cepea/Esalq-USP — preços pagos ao produtor de tilápia, 2025
- Revista Panorama da Aquicultura — “Aquicultura brasileira: os números de 2024 segundo o IBGE”
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Sources:
- IBGE — SIDRA, Tabela 3940 (2024)
- CompreRural / Estadão — Peixe BR: produção cresce 4,4% em 2025
- Aquaculture Brasil — Anuário Peixe BR 2026
- Panorama da Aquicultura — Os números de 2024 segundo o IBGE
