A maioria dos produtores não sabe — e esse desconhecimento custa caro. Segundo a Embrapa, 80% dos insetos encontrados em uma lavoura são neutros ou benéficos. Isso significa que, ao aplicar inseticida sem identificação prévia, você pode estar matando exatamente quem estava trabalhando a seu favor.

👉 No início da safra, logo após o plantio, os insetos-praga já começam a atacar — e é justamente nesse momento que os insetos benéficos também estão presentes, fazendo o controle biológico natural. Saber diferenciar uns dos outros é uma habilidade técnica que todo profissional do campo precisa dominar. Neste post, você vai conhecer 5 pragas que destroem lavouras e 5 aliados naturais que protegem sua produção sem custar nada.

🔴 PRAGAS — OS QUE VOCÊ PRECISA CONTROLAR

🐛 LAGARTA-DO-CARTUCHO (Spodoptera frugiperda)

A lagarta-do-cartucho é considerada a praga-chave da cultura do milho no Brasil. Ela ataca a planta logo após a germinação, alojando-se dentro do cartucho (a parte central onde as folhas novas se desenrolam) e destruindo o tecido foliar de dentro para fora. Em infestações severas, a lagarta consome toda a área foliar jovem, comprometendo o desenvolvimento da planta e causando perdas de produtividade que podem ultrapassar 50%. A Spodoptera frugiperda é uma lagarta de coloração verde-acinzentada com listras laterais escuras e um Y invertido característico na cabeça — esse detalhe é a forma mais segura de identificá-la em campo. Segundo a Embrapa, a cultura do milho pode ser atacada por mais de 20 pragas diferentes, mas a lagarta-do-cartucho é a que mais causa prejuízo econômico. Para a safra 2025/26, a recomendação da Embrapa é intensificar a amostragem nas fases iniciais, utilizar híbridos Bt com área de refúgio e rotacionar mecanismos de ação dos inseticidas para evitar resistência.

🐛 PERCEVEJO-MARROM (Euschistus heros)

O percevejo-marrom é uma das pragas mais destrutivas da soja e do milho no Brasil. Seu corpo tem formato de escudo, coloração marrom-escura e mede cerca de 11mm. Ele ataca de forma silenciosa: insere o aparelho bucal sugador nos grãos e na haste da planta, suga a seiva e injeta toxinas e enzimas digestivas no tecido vegetal. O resultado é o apodrecimento dos grãos, redução do peso e da qualidade da colheita, além da transmissão de doenças fúngicas como a levedura Nematospora coryli, que causa a “mancha-fermento” na soja. O percevejo-marrom costuma aparecer na fase reprodutiva da cultura, mas na sucessão soja-milho ele pode migrar de uma lavoura para outra, mantendo a pressão durante toda a safra.

🐛 MOSCA-BRANCA (Bemisia tabaci)

A mosca-branca é um inseto minúsculo — cerca de 1mm — que se aloja na face inferior das folhas em colônias densas. Apesar do tamanho, o estrago é enorme: ela transmite o vírus da necrose-da-haste na soja, uma doença que causa enrolamento das folhas, amarelamento generalizado e morte prematura da planta. Além da transmissão viral, a mosca-branca excreta uma substância açucarada (honeydew) que favorece o crescimento de fumagina, um fungo escuro que recobre as folhas e reduz a fotossíntese. A infestação tende a ser mais severa em períodos secos e quentes, exatamente quando a safra está em fase crítica de desenvolvimento.

🐛 PULGÃO (Aphis spp.)

O pulgão é pequeno, mede poucos milímetros, mas compensa na velocidade de reprodução: uma única fêmea pode gerar colônias de mil indivíduos em apenas 7 dias. Eles se aglomeram em caules, brotos e na face inferior das folhas, sugando a seiva continuamente. Além do dano direto pela sucção, o pulgão é vetor de dezenas de viroses vegetais — ele pica uma planta infectada, carrega o vírus no aparelho bucal e transmite para a próxima planta saudável. A presença de formigas “pastoreando” pulgões na planta é um indicador clássico de infestação: as formigas protegem os pulgões em troca do honeydew que eles excretam.

🐛 CIGARRINHA-DO-MILHO (Dalbulus maidis)

A cigarrinha-do-milho é um inseto pequeno e amarelado que se tornou uma das maiores preocupações fitossanitárias da cultura nos últimos anos. Ela transmite dois patógenos devastadores: o espiroplasma e o fitoplasma, causadores do enfezamento-pálido e do enfezamento-vermelho do milho. A planta infectada sofre nanismo severo — fica pequena, com espigas raquíticas ou sem grãos, e a perda de produtividade pode ser total. A cigarrinha é um inseto sugador que se alimenta da seiva do floema, bloqueando os vasos celulares e causando amarelamento. O controle é difícil porque ela migra longas distâncias e a população pode explodir rapidamente em condições quentes e secas.

🟢 BENÉFICOS — OS QUE VOCÊ PRECISA PROTEGER

🐞 JOANINHA (Coccinellidae)

A joaninha é o agente de controle biológico mais conhecido do mundo — e por bom motivo. Uma única joaninha adulta consome entre 50 e 100 pulgões por dia, e durante toda a sua vida pode eliminar milhares. Segundo a Embrapa, a joaninha é indicada para controle biológico de pragas como pulgões, cochonilhas e ácaros. Tanto a fase larval quanto a adulta são predadoras ativas. A larva da joaninha não se parece nada com o adulto — é um inseto alongado, escuro, com manchas alaranjadas, que muitos produtores confundem com uma praga e eliminam por engano. Esse é um dos erros mais custosos do campo: matar a larva de quem estava protegendo sua lavoura.

🐞 TESOURINHA (Doru luteipes)

A tesourinha é o inseto benéfico que mais se destacou nas pesquisas de campo da Embrapa Milho e Sorgo. Ela vive dentro do cartucho do milho — exatamente no mesmo lugar onde a lagarta-do-cartucho se instala — e preda ovos e lagartas dos primeiros estágios. Uma tesourinha consome até 12 lagartas por dia na fase ninfal, e ao longo da vida adulta pode consumir entre 1.890 e 3.831 pulgões. A tesourinha é reconhecível pela pinça (cerco) na extremidade do abdômen, que usa para capturar presas e se defender. Ela prefere ambientes úmidos e se abriga nas junções das folhas com a haste, o que a torna uma aliada natural perfeita para a cultura do milho.

🐞 CRISOPA (Chrysoperla spp.)

A crisopa é um inseto delicado, verde, com asas transparentes rendadas. O adulto se alimenta de néctar e pólen, mas é a larva que faz o trabalho pesado: uma única larva de crisopa consome até 200 pulgões durante seu desenvolvimento. A larva é tão voraz que é chamada de “bicho-lixeiro” ou “leão-dos-pulgões”. Um sinal característico da presença de crisopa na lavoura são os ovos depositados na ponta de finos “palitinhos” nas folhas — são pedúnculos de seda que a fêmea produz para proteger os ovos da predação. Se você encontrar esses palitinhos na sua lavoura, celebre: é sinal de controle biológico ativo.

🐞 ABELHA (Apis mellifera)

A abelha-europeia é o polinizador mais importante para a agricultura mundial. Sem polinização, culturas como soja, girassol, café, laranja e dezenas de frutíferas simplesmente não produzem — ou produzem muito menos. A regra de ouro é simples e inegociável: nunca aplique inseticida durante o período de floração. A aplicação de agrotóxicos durante a floração mata as abelhas em massa e pode comprometer a polinização de toda a área e das áreas vizinhas. A Embrapa recomenda que as aplicações de defensivos sejam feitas preferencialmente no final da tarde ou à noite, quando as abelhas não estão em atividade de forrageamento.

🐞 LOUVA-A-DEUS (Mantodea)

O louva-a-deus é o predador generalista por excelência — ele come qualquer inseto que consiga capturar, incluindo lagartas, besouros, gafanhotos, moscas e até outros predadores. Suas patas dianteiras são raptoriais (modificadas para agarrar presas) e sua visão binocular permite calcular a distância do ataque com precisão. O louva-a-deus não é especialista em nenhuma praga específica, mas sua presença indica um ecossistema equilibrado. Encontrar louva-a-deus na lavoura é sinal de que a cadeia alimentar está funcionando. Nunca o remova — ele está fazendo vigilância gratuita 24 horas por dia.

✔ Das 10 espécies apresentadas, as 5 pragas atacam de formas diferentes — a lagarta destrói tecido foliar, o percevejo suga grãos, a mosca-branca transmite vírus, o pulgão forma colônias explosivas e a cigarrinha causa enfezamento. Já os 5 benéficos trabalham como um exército natural: a joaninha e a crisopa controlam pulgões, a tesourinha ataca lagartas dentro do cartucho, a abelha garante a polinização e o louva-a-deus elimina qualquer praga que cruze seu caminho. O controle biológico conservativo — ou seja, criar condições para que esses aliados naturais permaneçam na lavoura — é uma estratégia comprovada pela Embrapa para reduzir custo com inseticidas e aumentar a sustentabilidade da produção.

⚠️ O erro mais comum é aplicar inseticida de amplo espectro sem fazer amostragem prévia. Inseticidas não-seletivos matam pragas e benéficos igualmente — e quando os predadores naturais morrem, a reinfestação de pragas acontece mais rápido e mais forte, porque não há mais controle biológico. Isso gera um ciclo vicioso de aplicações cada vez mais frequentes e mais caras. Antes de aplicar qualquer produto, identifique: o que está na planta é praga ou aliado? A resposta a essa pergunta pode economizar milhares de reais por safra.

🎓 Identificar insetos, entender ciclos de praga e aplicar manejo integrado são competências técnicas que separam o produtor amador do profissional. O curso Profissionalizante Agrícola em Agropecuária da Educa Agro EAD forma o profissional completo do campo — com conteúdo que vai desde o manejo de solo e culturas até a identificação de pragas e o uso racional de defensivos. No campo, quem conhece produz mais e gasta menos.

✅ A lavoura é um ecossistema vivo. Dentro dela convivem insetos que destroem e insetos que protegem — e o produtor que sabe distinguir um do outro tem uma vantagem enorme. Antes de apertar o gatilho do pulverizador, olhe com atenção: aquele inseto na folha pode ser seu maior aliado, trabalhando de graça, 24 horas por dia, safra após safra.

Referências:

Embrapa Milho e Sorgo — “Insetos-Praga do Milho e Seus Inimigos Naturais”. Panorama Fitossanitário.

Embrapa — “Controle biológico de pragas favorece preservação de insetos benéficos”. Portal Embrapa, 2021.

Embrapa — “Joaninha é indicada para controle biológico de pragas”. Portal Embrapa.

Embrapa — “Biologia e predação de Doru luteipes (Scud.) sobre Schizaphis graminum”. Publicações Embrapa.

Embrapa — “Pragas da Fase Inicial do Milho”. Agência de Informação Tecnológica.

Aegro — “Guia Completo das Principais Pragas Agrícolas: Soja, Milho e Algodão”. Blog Aegro.

Ministério da Agricultura — Manejo Integrado de Pragas: diretrizes para agricultura sustentável.