5 min de leitura · Pecuária

A mortalidade de bezerros entre o nascimento e a desmama atinge de 8% a 18% nos rebanhos brasileiros — e metade dessas perdas acontece nos primeiros cinco dias de vida. O mais preocupante: a maioria dessas mortes poderia ser evitada com observação atenta e manejo adequado.

O problema é que muitos produtores só percebem que o bezerro está doente quando ele já parou de mamar, está isolado do lote ou com diarreia avançada. Nessa hora, o prejuízo já está instalado.

👉 Identificar os sinais de saúde desde as primeiras horas é o que separa a cria eficiente da cria com perdas evitáveis.

Neste artigo, mostramos os 4 sinais que indicam que o bezerro está saudável — e o que cada um revela sobre a condição do animal.


1️⃣ Desenvolvimento Corporal

O primeiro sinal visível de um bezerro saudável é a conformação física. Um animal bem nutrido apresenta músculos preenchidos, costelas discretas (sem proeminência excessiva) e barriga equilibrada — nem distendida demais, nem retraída.

Segundo a Embrapa, bezerros que recebem colostro nas primeiras 6 horas e têm acesso adequado ao leite materno tendem a apresentar ganho de peso consistente já na primeira semana.

O que observar:

  • Costelas visíveis com leve cobertura muscular = normal
  • Costelas saltadas e pelagem opaca = alerta nutricional
  • Barriga muito distendida pode indicar acúmulo de gases ou diarreia
  • Membros firmes e alinhados, sem desvios articulares

👉 A conformação corporal é reflexo direto da nutrição da mãe no terço final da gestação e da qualidade da colostragem.


2️⃣ Comportamento e Vitalidade

Um bezerro saudável é ativo, curioso e responsivo ao ambiente. Ele levanta as orelhas quando ouve barulho, segue a mãe, explora o espaço e reage quando manipulado.

A escala de Apgar adaptada para bovinos, usada por veterinários desde os anos 1980, avalia justamente a vitalidade do neonato nos primeiros minutos de vida: frequência respiratória, tônus muscular, reflexos e coloração de mucosas.

Sinais positivos:

  • Caminhada firme, sem cambaleio ou tremores
  • Reflexo de sucção forte ao toque nos lábios
  • Animal que se levanta sozinho nas primeiras 2 horas de vida
  • Interesse pelo ambiente e pela mãe

Sinais de alerta:

  • Apatia, isolamento do lote
  • Permanece deitado por mais de 4 horas após o nascimento
  • Não responde a estímulos sonoros

👉 Bezerros nascidos de partos distócicos costumam apresentar menor vitalidade — exigem atenção redobrada nas primeiras 24 horas.


3️⃣ Olhos, Orelhas e Pelagem

Esses três indicadores funcionam como um “termômetro visual” da saúde sistêmica do bezerro.

Olhos: devem estar brilhantes, úmidos e sem secreção. Olhos fundos (enoftalmia) são sinal clássico de desidratação — comum em quadros de diarreia neonatal, que responde por 50% das mortes nos primeiros 30 dias de vida.

Orelhas: orelhas erguidas e responsivas ao som indicam vitalidade normal. Orelhas caídas, frias ao toque, são indicativo de hipotermia ou fraqueza.

Pelagem: pelo liso, brilhante e aderente ao corpo indica boa saúde. Pelo arrepiado, opaco ou com falhas pode indicar parasitose, deficiência mineral ou desnutrição.

👉 Uma avaliação visual rápida desses três pontos, feita todo dia, pode antecipar problemas antes de se tornarem emergências.


4️⃣ Mamada e Sistema Digestivo

A mamada é o indicador mais importante nas primeiras semanas de vida. Um bezerro saudável procura a vaca espontaneamente, tem sucção forte e mama com frequência — de 4 a 8 vezes por dia nos primeiros dias.

O colostro nas primeiras 6 horas é insubstituível: ele fornece as imunoglobulinas que o bezerro não recebe via placenta. Sem colostragem adequada, a taxa de mortalidade pode triplicar.

O que observar:

  • Reflexo de sucção ao toque nos lábios = vitalidade
  • Fezes nos primeiros dias: mecônio escuro (normal), depois amarelado pastoso
  • Abdômen moderadamente preenchido após mamar = boa ingestão
  • Diarreia aquosa, com sangue ou muco = intervenção imediata

⚠️ A diarreia neonatal é a principal causa de mortalidade em bezerros jovens. Segundo dados veterinários, ela é responsável por metade das mortes nos 30 primeiros dias. A prevenção começa com colostragem correta, higiene do ambiente e monitoramento diário da consistência das fezes.


⚠️ O Erro Mais Comum

Muitos produtores avaliam o bezerro apenas visualmente de longe, sem se aproximar. Isso mascara sinais precoces de problemas.

  • Não testar o reflexo de sucção nos primeiros minutos de vida
  • Assumir que “se está de pé, está bem” — bezerros compensam fraqueza por horas antes de colapsar
  • Ignorar diarreia leve como “normal de pasto”
  • Não monitorar se o bezerro realmente mamou colostro

👉 25% dos bezerros que morrem antes da desmama não sobrevivem aos dois primeiros dias. A janela de ação é curtíssima.


🎓 No Curso Profissional de Criação & Saúde Animal

Saber avaliar o bezerro é uma das competências que mais impactam o resultado da cria. No curso da Educa Agro EAD, esse e outros temas de manejo reprodutivo e sanitário são abordados com profundidade — da gestação ao desmame, com linguagem prática e certificado reconhecido.


✅ Conclusão

Os 4 sinais — desenvolvimento corporal, comportamento, olhos/orelhas/pelagem e mamada — formam um checklist simples que qualquer produtor pode aplicar diariamente. A observação atenta nas primeiras horas e dias de vida é o que mais reduz perdas na cria.

👉 Bezerro saudável não é sorte. É manejo.


Referências:

  • Embrapa — Boas Práticas de Manejo de Bezerros ao Nascimento
  • SENAR — Coleção 236: Bovinocultura — Primeiros Socorros
  • MilkPoint — Avaliação da Vitalidade de Bezerros Neonatos (Carla Bittar)
  • Zoetis — Boas Práticas de Manejo de Bezerros ao Nascimento
  • Giro do Boi — Mortalidade entre nascimento e desmama chega a 7% no Brasil
  • Revista Veterinária — Saúde dos bezerros recém-nascidos: como avaliar?
  • Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável — Manejo de Bezerros Recém-nascidos